Espiritualidade Bíblica

Setembro é o mês da Sagrada Escritura:  Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus

O mês da Bíblia, em 2016, tem como tema “Para que n´Ele nossos povos tenham vida” e lema “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus”. Segundo a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a proposta é estudar o livro do profeta Miquéias. Mas quem foi Miquéias? E o que é espiritualidade bíblica?

Irmã Teresa NascimentoComeçamos por abordar a espiritualidade bíblica. Coordenadora dos cursos de extensão da Faculdade Católica de Santa Catarina (Facasc), Irmã Teresa Nascimento explica que espiritualidade vem de “espírito”. Em hebraico (ruah), espírito é palavra feminina, em grego (pneuma), em latim (spiritus), palavra masculina. “Espírito, ‘pneuma’, é sopro de vida que anima, é energia pela qual Deus age (Gn 2,7). Faz lembrar impulso, força que unifica interiormente, que anima e leva a agir. Impulsiona, dá força e coragem para ser testemunhas (At 1,8)”, frisa. Então, conforme Ir. Teresa, espiritualidade é a vida segundo o espírito, “é deixar-se conduzir pelo espírito”.

Há uma espiritualidade que perpassa toda a Bíblia, que pode ser entendida como “Espiritualidade Bíblica”. Irmã Teresa afirma que se insere num contexto mais amplo, da espiritualidade universal, ecumênica, própria do ser humano. “Destaco aqui, duas grandes linhas da espiritualidade bíblica: a espiritualidade profética e contemplativa”.

A espiritualidade profética se caracteriza pela indignação e pela crítica diante da injustiça, pela resistência diante dos conflitos e pela intimidade com Deus. A religiosa ressalta que os profetas são homens apaixonados pela causa da justiça (Os 2, 21) e falam em nome de Deus, impulsionados pelo zelo da fidelidade à aliança com Ele. Denunciam todo tipo de opressão, exploração, violência, corrupção e idolatria dos chefes políticos e religiosos e do povo, como ruptura dessa aliança com Deus. “Amós, Miquéias e Jeremias, por exemplo, enumeram uma série de opressões e injustiças da sociedade do seu tempo, aliadas à falsidade do culto, e apresentam as ameaças de Deus (Am 2,6-16; Mq 3, 1-12; Jr 7, 1-11 ).”

Na intimidade com Deus e atentos à realidade do povo, segundo Ir. Teresa, os profetas cultivam sonhos e esperanças. Anunciam ao povo uma nova sociedade onde Deus reinará, “marcada pela justiça, paz, partilha, fraternidade e solidariedade, vida com dignidade para todos, segundo seu projeto de amor e libertação total”.

 

Quem foi Miquéias

Especialista em Espiritualidade e professora em disciplinas de Teologia Bíblica na Facasc, Irmã Teresa frisa que o profeta Miquéias denuncia os crimes cometidos pelos governantes, magistrados e líderes religiosos do seu tempo, que exploram e oprimem o povo. Além disso, “detestam o direito” e “distorcem a justiça”, e diz que quando eles clamarem a Javé, não serão ouvidos pois “seus atos foram maus” (3, 1-4). Miquéias aponta os pecados dos chefes e do povo e chama todos à conversão, mediante a prática do direito, da justiça e da misericórdia. Anuncia a libertação e restauração do povo exilado na Babilônia, apresentando a eles uma mensagem de consolo e esperança: Deus reunirá e trará de volta os exilados à sua terra (Mq 2,12); de Sião sairá a Lei e de Jerusalém virá a palavra de Javé (4,2); suas muralhas serão reconstruídas (7,11). Será uma nova era de paz, justiça e reconciliação, onde o povo andará pelos “caminhos do Senhor”.

Ainda conforme Ir. Teresa, Miquéias apresenta um Deus misericordioso que não fica indiferente diante do sofrimento do seu povo, mas permanece fiel à sua aliança. Esquece e perdoa os seus crimes e prefere agir com amor e misericórdia (7,18-20). A irmã ressalta que hoje, também, vivemos numa sociedade marcada pela injustiça, corrupção, violência. “Neste ano do Jubileu da Misericórdia, a Igreja nos chama, através do tema do Mês da Bíblia, a mergulhar na profecia de Miquéias, que nos ajuda a despertar em nós a consciência crítica e a indignação ética e profética. Assim, possamos assumir nosso compromisso na construção de uma sociedade mais humana, justa e fraterna, com homens novos e mulheres novas, capazes de novas relações movidas pelo amor, pela solidariedade e misericórdia”, evidencia

 

Como ler a Bíblia em oração

Para ler a Bíblia em oração, Irmã Teresa destaca a Lectio Divina (Leitura Orante da Bíblia), que é tão antiga quanto o próprio cristianismo e que tem sua fonte na Palavra de Deus. Ela explica que as comunidades cristãs primitivas faziam a leitura do Primeiro Testamento à luz da fé em Cristo ressuscitado, vivo e presente no meio deles. O termo Lectio Divina dá a entender que “é preciso rezar, para compreender as coisas divinas”.

Resultado de imagem para living the bibleDe acordo com a irmã, nas comunidades cristãs da América Latina, sobretudo nas periferias urbanas e rurais, desde os anos 1960 a Leitura Orante da Bíblia tem sido uma prática nos círculos bíblicos, hoje grupos de reflexão, grupos bíblicos em família, nos encontros e cursos bíblicos. “É a leitura feita na atitude do discípulo: todas as manhãs, o Senhor abre meus ouvidos para que eu ouça como discípulo (Is 50, 4b)”.

Em síntese, conforme Ir. Teresa, pode-se dizer que segue este itinerário: “Ler o texto, ouvir, refletir ou meditar, partilhar e aplicar à vida, rezar ou celebrar, em resposta à Palavra e comprometer-se, isto é, levar à prática, através de uma atitude e/ou ação pessoal ou coletiva, a Palavra lida, meditada, contemplada e rezada”, orienta.

A atitude de oração está presente desde o início da Leitura Orante, quando se invoca o Espírito Santo. A meditação também é uma atitude de oração em si, seguida do momento de oração propriamente dito, que pode ser espontânea, através de um salmo ou alguma fórmula, como o Pai Nosso e outras. “É o diálogo com Deus, onde ouvimos o que Ele tem a nos dizer e expressamos nosso louvor, súplica e gratidão. Trata-se de uma oração bem ligada com a vida.”

 

“O Senhor abre meus ouvidos para que eu ouça como discípulo”

  

Vivência e experiência de fé nas paróquias

O Mês da Bíblia é celebrado no Brasil em setembro. A data foi idealizada na década de 1970 com o propósito de instruir os fiéis sobre a Palavra de Deus. Para o Arcebispo de Curitiba (PR) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB, Dom José Antônio Peruzzo, o Mês da Bíblia na Igreja brasileira se tornou espaço de vivência e experiência de fé nas paróquiasestudo-da-biblia.

O Arcebispo também salienta que a cada ano cresce nas comunidades de fé o gosto e “o sadio anseio por conhecer a Palavra de Deus”. Observa que não é somente curiosidade ou apenas vontade de conhecer mais os temas que envolvem a religião. “Muito mais, há no coração de nossa gente um secreto desejo de sentido e de esperança. Há uma busca sincera e singela de experiências de fé. Nosso povo quer sentir a proximidade de Deus”.

Dom Peruzzo ainda recorda a importância da vivência da Palavra de Deus na vida em comunidade e na família. “Nosso país precisa de novas experiências de profetismo. O mesmo vale para a nossa Igreja e para as nossas comunidades. Enquanto houver profetas, aqueles que pronunciam a Palavra ouvida de seu Senhor, Deus ainda não terá sido silenciado em meio aos seus. Valorizar a palavra profética, ouvindo-a com humildade e respondendo com fidelidade, é como desejar que a voz de Deus seja sempre a primeira a ressoar e a última a ecoar”, orienta.

 

“Há no coração de nossa gente um secreto desejo de sentido e de esperança”

 

Diferença entre Bíblia Católica e Bíblia Protestante

A Bíblia Católica tem sete livros a mais, que são aqueles escritos, originalmente, em grego, aceitos, depois de séculos de discussão, como inspirados nos demais, escritos em hebráico. São eles: Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida), 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4-16; Daniel 3,24-20; 13-14. Tais livros não foram aceitos como inspirados pelos protestantes. Por isso, não entraram na tradução da sua Bíblia.

 

Ler a Bíblia traz muita satisfação

“A Bíblia é o melhor e mais detalhado ‘manual de instrução’ que conheci”, afirma Márcio Petermann, 60 anos. Filho de uma família católica, em que pai e mãe foram frequentadores assíduos da Igreja, o aposentado que ganhou a vida como engenheiro mecânico teve o gosto pela leitura da Sagrada Escritura, despertado quando ainda jovem. Ao ler a Bíblia, ele percebeu que o legado de Deus pode orientar as pessoas no dia a dia.

Resultado de imagem para living the biblePetermann enfatiza, entretanto, que somente ler a Bíblia não basta. Na sua opinião, é preciso transformar a satisfação com a leitura em ações concretas. “Para sermos verdadeiros cristãos devemos imitar as atitudes de Jesus Cristo. Só conseguiremos isso se praticarmos sua Palavra”, observa o aposentado, integrante do Movimento Campista em Brusque, que tem como finalidade evangelizar e fazer com que os participantes se tornem engajados em suas comunidades.

Para Petermann, somente quando se lê a Sagrada Escritura com o coração, buscando se alimentar da Palavra de Deus, é que realmente se tem satisfação. Ele assegura que para todas as situações da vida, quer no sofrimento ou na alegria, é possível encontrar na Bíblia a forma de agir. Foi assim ao longo de sua vida. E, assim, que ele conseguiu construir uma família. “Deus tem sido muito generoso comigo e minha esposa. Temos um casal de filhos maravilhosos, ambos casados com pessoas igualmente maravilhosas. Temos também um casal de netos que são a alegria de nossa família. Agradeço a Deus a cada dia pela família abençoada que Ele nos deu. Amém!”.

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