Gruta de Angelina: A Virgem Maria que em três sonhos indicou o local

Em minhas noites insones fico sempre a pensar sobre o que eu devo pesquisar e escrever – sempre fui um curioso das coisas, querendo entender sobre tudo.

Mesmo não sendo católico, desde criança todos os rituais dessa Igreja me fascinavam: a sua liturgia, de certa maneira, é-me nostálgica! Os meus amigos já sabem que sempre tenho o hábito de conhecer as igrejas das cidades por onde passo. Dias desses, após levar minha madrinha ao Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Angelina, aproveitei enquanto ela fazia seus exames para subir à Gruta e fotografá-la, já que em outros momentos eu só fazia isso nos dias em que esta sempre está com muitos fiéis.

E diante dessa cidade tão bonita, diante de uma bela gruta, somados aos muitos amigos que tenho nessa cidade, foi-me como o sonho do Frei Zeno: tive um estalo – era preciso que eu estudasse melhor e conhecesse toda a história desse tão belo cartão-postal, símbolo da fé.

Sempre faço minhas orações diante dela e participo das peregrinações na Semana Santa. Esse ano, influenciado pelas disciplinas do meu curso de graduação em museologia, eu fui como pesquisador: passei a noite analisando o povo que chegava à Gruta, li as placas de graças alcançadas, as missas ao ar livre, etc. Quem tiver a vontade de fazer tal experiência antropológica eu recomendo. Certamente irá se admirar, assim como eu, com as manifestações de fé, de encorajamento, de superação e de respeito.

Mas era preciso mais do que isso. Eu precisava dispor mais do meu tempo pesquisando sobre a gruta. E como sempre, tudo o que pesquisei eram-me informações demasiadamente técnicas. Eu prefiro textos com emotividade, onde o leitor vire o ator e se insira no contexto. Era preciso que eu escrevesse poesias sobre a gruta! Mas poesia é uma arte difícil: deve-se sentir pertencido para que ela seja tocante… Então parti em busca desse pertencimento!

Lembrei-me de um livro que li na ocasião em que eu estudava na antiga Escola Técnica Federal, hoje Instituto Federal de Santa Catarina. Trata-se da obra O Poder da Fé & a Paranormalidade, de Pedro Grisa. Ali há um capítulo – O Sonho de Frei Zeno – dedicado à História da gruta. Segue trechos para apreciação. Espero que gostem!

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A Gruta Nossa Senhora de Lourdes, em Angelina (SC), foi construída em 1902 por Frei Zeno Walbroehl, padre franciscano nascido na Alemanha em 1866, que veio para o Brasil para realizar, juntamente com outros confrades, importantes trabalhos missionários.

A narrativa a seguir, relatada diretamente por Frei Hugolino Back(—–), apresenta os fatos que se relacionam com a escolha do local e a construção da referida Gruta, a qual já se convencionou chamar “O Milagre de Frei Zeno”.

O local da gruta

Segundo contam os moradores mais antigos de Angelina e localidades adjacentes, o local da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes foi escolhido pela própria Virgem Maria.

Frei Zeno veio para o Brasil em 1891, com 25 anos de idade, apenas ordenado sacerdote, juntando-se ao grupo de missionários que já haviam se estabelecido na localidade de Teresópolis, região que hoje integra o município de Águas Mornas (SC).

Ali trabalhou alguns anos, quando então adoeceu, vítima de tuberculose (doença ainda não controlável pela ciência médica naquela época).

Para buscar melhores recursos e mudar de clima foi transferido para Petrópolis (RJ). Mas, quanto mais o tempo passava, mais ele piorava e, numa certa noite, os padres pensavam que ele iria morrer.

Frei Zeno, enfraquecido pela doença, dizia a si mesmo que não podia entender por que deveria morrer tão jovem, já que queria tanto trabalhar nas missões do Brasil. Aproveitou o pouco de vida que lhe restava para fazer uma promessa a Virgem Maria, dizendo: “Se eu ficar curado vou construir uma gruta a Nossa Senhora de Lourdes e vou continuar meu trabalho missionário”.

Naquela noite de 1899, Frei Zeno, em estado febril, teve um sonho que mostrava, como se fosse uma visão, o lugar onde ele deveria construir a gruta. Era um morro coberto de árvores, com um paredão de pedras, de cujo topo descia uma grande cascata de águas cristalinas. Mas ele não sabia onde ficava esse lugar.

Milagrosamente, no dia seguinte, Frei Zeno estava curado.

Foi, então, transferido para Guaratinguetá (SP) e logo após para Santo Amaro da Imperatriz (SC), onde recebeu, juntamente com outros padres, o encargo de visitar as capelas da Paróquia de Santo Amaro, que era, na época, uma grande paróquia, depois desmembrada em outras, como São Bonifácio e Angelina, a qual tem como sede o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes.

Naquele tempo, todas as viagens às capelas eram feitas a cavalo, pois não havia outra condução. Os padres ficavam dois ou três dias em cada capela, depois seguiam para outra e, geralmente, após um mês de visitas, retornavam à sede, ou seja, à Casa Paroquial de Santo Amaro.

Quando Frei Zeno chegou, pela primeira vez, em Angelina, sonhou que era lá que deveria construir a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes.

No dia seguinte, saiu com um grupo de homens à procura do local que lhe fora mostrado no sonho.

Acharam muitos lugares bonitos, porque Angelina é uma região montanhosa, rica em quedas d’água. Mas nenhum desses locais correspondia àquele que Frei Zeno havia visto no sonho, em Petrópolis, quando estava à beira da morte.

Passados mais ou menos seis meses, Frei Zeno retorna a Angelina, em visita à capela. Já na primeira noite, sonha novamente que era lá que deveria construir a gruta. Pela manhã, saíram, mais uma vez, à procura do local, e também não encontraram.

Um ano depois, Frei Zeno, voltando a Angelina, fica surpreso ao ver o sonho se repetir; então, percebe a insistência de Nossa Senhora em ver sua gruta construída nessa localidade. Parecia que a Virgem estava cobrando a promessa que ele tinha feito quando estava doente.

No dia seguinte, bem cedo, conversando com alguns homens olha o rio que passa atrás da capela e depois para o morro coberto de mata, logo adiante. Então, pergunta-lhes se há um rio naquele morro.

Os homens dão uma boa risada e dizem com certeza que lá não existe nenhum rio. Porém um deles conta que, quando chove muito, escuta-se um ronco de água vindo do alto do morro.

Frei Zeno pede aos homens que peguem foices e facões para irem à procura do lugar com que ele havia sonhado. Atravessam o rio que passa artás da capela (hoje Santuário de Angelina), entram no mato e logo encontram um riacho que desce o morro e entra no rio.

Começam a subir pela beira do riacho e encontraram várias quedas d’água, uma mais bonita que a outra. Perto de cada uma, os homens perguntam a Frei Zeno se aquele é o lugar do seu sonho. O Frei diz que não, e continuam subindo. Os homens já começam a desanimar e a duvidar se havia mesmo ess lugar que Frei Zeno procurava.

Continuam subindo riacho acima e chegam quase no topo do morro. Diante de uma linda queda d’água, Frei Zeno começa a gritar:

– É este o lugar!… É este o lugar que eu vi!… É este o lugar que eu vi!

Assim, fica claro que esse lugar foi escolhido por Nossa Senhora como o local predestinado por Deus para distribuir suas grandes graças aos homens.

O local escolhido para a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, em Angelina, é descrito por Frei Elziário Schmitt, com uma impressionante riqueza de detalhes.

“Já quase no alto do pico, encontraram um grande corredor, entre flancos de pedra, coberto de vegetação, uns 15 metros de largo com 10 de comprido, fechado aos fundos por um paredão com 12 metros de alto. Escachoando em espumas pelo flanco direito, descia o maravilhoso salto da floresta, caindo num tanque cristalino de rocha – um grande espetáculo, há quantos mil anos, onde o sol, em filigranas brancas, descia pelas franças de todas as árvores de lá do alto, queimando de esplendor, lá embaixo, as cintilações inquietas, frescas e floridas, de uma gruta fenomenal, aberta sem a mão do homem, há muitas centenas de séculos esperando por Nossa Senhora. E muito mais bonita do que no sonho…”

O sonho se concretiza

 

Frei Zeno, emocionado com a descoberta do local que Nossa Senhora lhe mostrara em sonho, no ardor de seu entusiasmo escreve à sua mãe relatando os milagrosos acontecimentos vivenciados por ele. Fala das dificuldades que antevê no cumprimento definitivo de sua promessa.

Mas grande é a sua surpresa e incontida é sua alegria ao receber a resposta de sua carta, na qual a mãe comunica que, em sinal de gratidão à Imaculada Conceição por ter salvo a vida de seu filho padre, enviará uma réplica da imagem de Nossa Senhora que está no Santuário de Lourdes, na França.

Tomado de novo entusiasmo, Frei zeno põe mãos à obra, recebendo todo o apoio de seus confrades e da comunidade católica da Angelina na construção da gruta.

Como o local era de difícil acesso, foi necessário abrir um caminho para chegar até lá. Foi construída, então, uma estrada com catorze voltas. É interessante observar que o número de voltas foi exatamente o mesmo que o das estações da Via Sacra.

Quem comandou a construção da estrada e da gruta foi Frei Bucardo Sasse e Frei Josefá Immenkoetter.

A imagem de Nossa Senhora, medindo 1,95m de altura, doada, pela mãe de Frei Zeno, chega a Florianópolis de navio no início de 1902.

Frei Zeno reúne um grupo de pessoas das redondezas de Angelina para ir a Florianópolis buscar a tão esperada imagem. Naquele tempo, para vir de Angelina a Florianópolis levava-se mais ou menos dois dias de viagem, a cavalo ou de carroça. Eram mais de 50 quilômetros de estrada estreita, de chão batido e cheia de curvas.

A imagem de Nossa Senhora foi transportada num carro de boi conduzido pelo Sr. Adão Nicolau Schmitt, pai de Frei Elziário.

Em Angelina, permaneceu durante cinco anos na capela de São Carlos Borromeu, num altarzinho feito especialmente para ela.

Somente em 15 de agosto de 1907 a imagem da Virgem é transferida para o alto do morro e colocada no nicho de pedras construída ao lado da queda d’água que cai de uma altura 12 metros.

Logo após a transferência da imagem de Nossa Senhora para a gruta, são encomendados, também da Alemanha, os quadros da Via Sacra, que chegam ao porto de Desterro embalados em quatro grandes caixotes de madeira. Para facilitar o transporte até Angelina, as caixas são abertas e os catorze blocos de gesso, medindo 85cm de altura por 60cm de largura, são levados em carroças com a ajuda dos colonos da região.

É importante observar que, apesar da fragilidade do material utilizado nas estátuas, tanto a imagem da Virgem Maria quanto as catorze estações da Via Sacra chegaram a Angelina intactas, sem a menor rachadura ou arranhão, missão quase impossível levando-se em conta a longa e difícil trajetória percorrida por elas, tanto na viagem marítima como no difícil transporte terrestre.

O sonho de Frei Zeno torna-se uma realidade e sua promessa é cumprida.

A gruta e as Vocações Sacerdotais

A intenção de Frei Zeno era, de modo especial, que através da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes surgissem muitas vocações sacerdotais e religiosas. O município de Angelina tornou-se uma grande sementeira de vocações religiosas.

Frei Zeno trabalhou longos anos na pastoral das Paróquias do Sul, realizando seu trabalho missionário com dedicação e entusiasmo, com muita fé e confiança na Virgem Santíssima.

Faleceu em 1925, em Petrópolis (RJ), com idade de 59 anos. Seus restos mortais foram recentemente transladados para Angelina, onde foi construída uma capelinha em homenagem ao idealizador e fundador da Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, que hoje representa um grande marco histórico e religioso da região.

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Foi-me numa forma de “sinal” que obtive o entusiasmo em falar, pesquisar e escrever sobre a Gruta! Como mencionei anteriormente, essas liturgias me fascinam!

Atualmente a Gruta é um referencial da cidade de Angelina, constituindo-se em Patrimônio. E essas histórias devem ser passadas adiante para que angelinenses e demais visitantes conheçam-na a fim de não acabarem sendo esquecidas. Preservar a arte, a cultura e as tradições de uma cidade é o primeiro passo para se adquirir uma Identidade, e essa, Angelina tem! Forte abraço, visitem a Gruta e tenham paz! É isso!

 

Fonte:

GRISA, Pedro. O Poder da fé & Paranormalidade. São Paulo:1997. Edipappi

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